#ParaCegoVer: foto de Eleonora Campi, mulher de cabelos curtos e suavemente grisalhos, sorrindo em uma sacada com diversas plantas atrás.

Sair do armário é uma expressão que contempla em si um ato de dignidade, contemplação de direito, emancipação e até um plano estratégico. Independente da opinião de cada um de nós, é um ato de coragem que não tem hora nem lugar certo para acontecer, mas tem em si um poder transformacional que só quem vive pode contar.

Leia abaixo o depoimento de Eleonora Campi, percursora do grupo de afinidades LGBT da IBM Brasil, que nos brinda com sua conquista pessoal e nos ensina caminhos possíveis para o respeito e valorização da orientação sexual no ambiente corporativo.

Cheguei à IBM por volta das 8, hoje é segunda-feira, dia do meu rodízio e eu acabei pegando um táxi. Assim que subi encontrei meus dois melhores amigos, que me perguntaram sobre o final de semana:

– O meu foi bom e o de vocês?

E cada um contou detalhes sobre como havia passado:

– Ontem eu e minha esposa almoçamos na casa dos meus pais e a tarde fomos ao cinema.

– Eu e meu marido fomos para praia, tava um sol de rachar.

Às 9 fomos todos para a reunião da Unidade, onde saberíamos os resultados do quartil. Qual não foi minha surpresa, quando nosso diretor anunciou uma premiaçao para mim. Que prêmio! E com direito a acompanhante:

– Minha amiga, quem você vai levar, hein?

E todos vieram me cumprimentar, me abraçar pelo prêmio. E não parou por aí. Em seguida, o Diretor anunciou duas promoções: um gerente de vendas seria promovido para Gerente da Unidade no Rio mesmo e eu seria promovida para uma função fantástica em São Paulo. Uau! Eu não estava acreditando naquilo!!

Fui conversar com o Diretor sobre a surpresa que foi aquela promoção e minha preferência em ficar no Rio e ele disse:

– Bem, vocês dois eram os os melhores no time e como você é solteira, definimos sua promoção para São Paulo.

Bem, saímos correndo da reunião, pois nossa equipe tinha um almoço com um de nossos principais clientes. Falaram para o cliente sobre meu prêmio e durante o almoço foi a maior brincadeira. O cliente também ajudou:

– Então você não tem namorado? Uma pessoa tão especial como você? Pois eu tenho um amigo que é a tua cara. Vou dar uma festa lá em casa no sábado e faço questão que você venha, tenho certeza que vocês vão ser dar bem. Ele é muito boa pessoa também. Tá aqui o endereço.

Voltei para casa à noite preocupada com meu futuro. Minha companheira já estava dormindo, mas acordou com a minha chegada:

– Oi, querida, como vai? Parabéns! Me explica direito a história desse prêmio e da promoção. Você me falou tão rápido pelo celular que eu ainda não entendi nada.

– Pois é, ganhei um dos melhores prêmios de minha vida: três dias em NY ou São Francisco, comendo, bebendo e me divertindo com o que há de melhor, com tudo, tudo pago pela empresa. E tem mais, com direito a acompanhante.

– É mesmo? Que maravilha! E quando nós vamos?

– Pois é, vou precisar mais uma vez de sua compreensão. Não sei se seria conveniente levar você. Seria muito estranho eu aparecer com uma amiga num prêmio desses. Desculpe-me mais uma vez. E tem mais: minha promoção é para São Paulo.

– São Paulo? Disse ela… Poxa, e o meu emprego? Meu seguro-médico?! Como fazemos?

– Pois é… Vamos conversar mais a respeito disso…

E assim, algo que deveria ser motivo de maior alegria, passou a ser de preocupação. Passei a carregar esse peso por um bom tempo e, apesar de toda aceitação de minha parceira, eu me sentia mal. Eu lembrava de todo apoio que ela me dera, ano após ano, sempre agüentando eu chegar tarde, me ouvindo falar dia e noite sobre meu trabalho, não participando de jantares, viagens e tantas festas.

Voltei a meu dia-a-dia e pensei como era difícil fugir dos pretendentes que os colegas e clientes tentavam me arrumar.

Não mais fácil era inventar, omitir ou trocar nomes de amigas, para não caracterizar minha relação, quando contava sobre meus finais de semana. Eu tinha um verdadeiro banco de dados na minha cabeça para controlar o que contara na semana anterior e na anterior ainda, de forma a não cair em contradição. E que stress cada segunda-feira de manhã! E como era difícil não ser honesta e que sempre fui íntegra. Quantas vezes me vi como o personagem das piadas sobre gays e lésbicas que me contavam? E ainda tinha que rir. Na verdade, rir de mim mesma.

Quantas vezes mais eu teria que ficar sozinha nas festas, sozinha nas viagens, sem poder contar aos outros sobre meus momentos de alegria.

Mas parece que tudo isso está muito próximo de ser modificado. Devido a todo o suporte que a IBM tem demonstrado, às iniciativas mundiais de apoio do grupo executivo, eu me enchi de coragem e comecei a me abrir.

Na semana passada contei à minha melhor amiga no trabalho. E qual não foi a minha surpresa com a recepção dela:

-Que bom que você falou. Que honra você ter tido confiança para se abrir comigo. Continuo admirando você ainda mais do que antes.

A pronta compreensão e maturidade dessa amiga me fez sentir aceita, incluída. Todo o receio que eu tinha se desfez e um peso enorme saiu de minhas costas. Ela talvez não sabia o tamanho da grandeza de sua atitude, mas daquele dia em diante eu produzi mais. Não somente porque me senti mais feliz, mas porque, pelo menos para ela e, hoje para umas 10 pessoas a quem já me revelei, tenho certeza de que minha relação vai ficar mais fácil, que vou me arriscar menos a perder alguém de quem tanto gosto e que me acompanha por tantos anos.

Me sinto mais leve, parece que me sobra mais tempo, sinto prazer em dizer a verdade e sei que muitos já me aceitam do jeito que sou, pelo que eu sou.

Meus colegas são realmente pessoas especiais, a quem eu prezo e admiro. Especial também é a minha empresa, que não só me aceita como eu sou, mas que me deu as condições para eu poder ter a coragem para me abrir, para, enfim, me sentir mais livre, mais feliz. Hoje trabalho melhor, produzo mais e me sinto muito mais comprometida com o sucesso da IBM. A admiração que passei a ter pela IBM não é mensurável. Jamais deixaria esta empresa para voltar àquela condição anterior. Hoje posso ser eu mesma.

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