#PraCegoVer: Foto de Bruno Rigonatti, ele está com um leve sorriso no rosto com a cabeça um pouco inclinada para a direita. Ao fundo, algumas pessoas conversando.

Vira e mexe me fazem esta pergunta: “Por que você levanta tanta bandeira, Bruno?”

Na forma, ela varia. Às vezes é mais direta. Outras, mais sutil.

— Você anda bem ativista, né?
— Esse grupo LGBT aí não dá muito trabalho?
— Não é muita confusão essa Parada LGBT?
— Não acha melhor não se expor tanto?

Mas no fundo, todas querem dizer a mesma coisa: Precisa de tudo isso?

Eu mesmo já me fiz essas perguntas poucos anos atrás, quando saí do armário. Para mim, a resposta não era óbvia. Isso porque, mesmo sendo gay, nasci nesse mundo cercado de privilégios que a maioria das pessoas LGBT não tem: homem, branco, de classe média alta, paulistano, cisgênero, de família e amigos tolerantes, e com poucos traços em geral associados aos gays. Essa bolha em que nasci não me fez imune ao preconceito, mas certamente permitiu que eu vivesse por algum tempo sem precisar levantar bandeira nenhuma.

A ficha foi caindo aos poucos.

Com o tempo, eu entendi que ficar calado é ser cúmplice do preconceito e de toda a violência a qual boa parte dos gays, lésbicas, bis e trans no mundo ainda estão sujeitos. Nesse exato momento, milhares de pessoas estão sendo desprezadas, ridicularizadas, demitidas, assediadas e mortas exclusivamente por sua orientação sexual ou identidade de gênero. Nenhum heterossexual sofre isso.

Muitas vezes já tive medo de segurar a mão de um namorado na rua com receio de ser ameaçado ou agredido. As pessoas têm ideia de quanto isso dói para mim? Imagina, então, o que sente quem tem medo até de sair de casa só por ser quem é? Tem muita gente cuja mera existência é um ato político – para quem levantar bandeira é questão de sobrevivência.

Falta empatia. Aprender a se colocar no lugar do outro e sentir suas dores como se fossem nossas é um processo difícil, mas é fundamental se a gente realmente quer mudar esse cenário. Privilégio não é algo do qual a gente deve ter vergonha, mas é preciso ter consciência dele para ter empatia e usá-lo em favor de quem não o tem.

Com isso, percebi que levantar bandeira não era questão de escolha para mim, e sim de responsabilidade. Num Brasil que convive diariamente com a morte de Dandaras e Itaberlis, levantar bandeira é assumir seu papel na construção de uma sociedade livre de discriminação, na qual todos sejam respeitados e tenham o direito de viver e serem felizes em todos os âmbitos. É ajudar a dar voz, visibilidade e representatividade a quem não tem simplesmente porque nasceu em outro berço, cresceu com outros amigos ou trabalha em outro lugar.

Por isso eu levanto bandeira em casa, no trabalho e na rua.

Quando me assumi para a minha família, não foi só para eu me sentir mais confortável, mas também para ajudar a desconstruir os estereótipos que tinham sobre pessoas LGBT.

Quando ajudei a fundar o grupo LGBT na Ambev, não foi só para garantir os meus direitos e de meus colegas no trabalho, mas também para inspirar outras empresas brasileiras a pensarem nos seus mais de 60% de funcionários LGBTs que não se assumem por medo, segundo estudo da Center for Talent Innovation.

Quando marchei na Parada LGBT não foi só para celebrar todas as conquistas que já conseguimos nas últimas décadas, mas também para lembrar o quanto ainda precisamos caminhar na luta contra a discriminação no Brasil e no mundo.

Por tudo isso que eu e tantas pessoas – LGBT e aliadas – escolhemos levantar bandeira todos os dias, não só hoje. Não só essa semana. Não só este mês. Todo dia.

E você, quando vai levantar bandeira comigo?

SiteLock

Acessibilidade